Retalhos e Devaneios

Retalhos e Devaneios

Páginas

segunda-feira, 16 de março de 2015

Até quando?..... Parte I


Bonito lugar, um hostel em Curitiba. Sexta-feira, lotado. Eu aguardava meu amigo, sairia às 23 horas, trabalhava lá. Ouvia um jazz, proposta musical da noite, observava a chuva que caia e as pessoas que entravam e saiam. Gente bonita; bebiam vinho e chopps artesanais, comiam tortas com nomes estrangeiros e crepes a moda francesa. 
Num dado momento, fui convidada pelo dono para sentar com ele e meu amigo para provar uma nova receita de crepe. E que delícia de crepe! Fiquei ali conversando timidamente, mais preocupada em não devorar o crepe sozinha. 
Mais pessoas chegaram e sentaram à mesa conosco. O dono do hostel, um cara jovem, boa pinta, ficou em êxtase com a presença dos novos integrantes. Uma das pessoas era uma senhora muito distinta, bem vestida, e perdão minha ignorância, parecia ser bem conhecida, não faço a menor ideia de quem era. Todos a elogiavam com entusiasmo, só aí percebi que bem acima da minha cabeça havia um quadro dela, mais jovem, mas ela; flor no cabelo. Fiquei tentando decifrar se ela se tratava de uma dançarina, atriz, escritora...- quem seria? - Pensava eu. Porém meus pensamentos foram interrompidos com a altura absurda das risadas. Perguntei para um rapaz, ao meu lado, qual era o motivo da euforia. Então o dono do lugar, euforicamente, virou e me disse: 
“Fulana” – não lembro mais o nome da senhora distinta, a dama do quadro do hostel, paparicada por todos – se recusou a fazer uma campanha favorável ao feminismo, ela é demais! – A fulana, dona distinta e tal, estava com o peito estufado, cheia de orgulho e discreta vaidade, talvez não tão discreta – Feministas horrrosas! Nazistas! Feminazis! Todas são umas burras! Não conheço uma infeliz dessas que seja inteligente!  Certo mesmo “Fulana” – mulher do quadro, sorridente a todos que estavam próximos a ela, mudava o olhar, mas parecia só enxergar a si própria, alegre, seu ego parecia ter corpo e colhia os frutos do seu “grandioso feito” – 
Com muito mal estar olhei ao redor, homens aplaudiam e riam muito, mulheres ficavam repetindo frases soltas que ouviram de feministas, mostrando assim o quanto essas feminazis são imbecis. Meu mal estar piorou, aí me dei conta que não estava respirando. Havia trancado a respiração, na certa para que ela não me delatasse. Estratégia falha, pois assim que soltei o ar, o cara, o dono do hostel, percebeu meu suspiro e olhou-me com atenção. Um olhar a espera de minhas palavras. Para não parecer louca, surtada ou descontrolada, disse docemente: 
- Você sabe o que é feminismo?
Rindo ele respondeu:
- Um bando de nazistas idiotas. 
Mudei meu sorriso doce para algo mais sério.
- Estou realmente curiosa, você sabe o que é feminismo?
Ele também fechou um pouco a cara. 
- Olha eu não sei, nem quero saber. Sei que são umas fedelhas idiotas, nazistas, que nem educação querem aceitam mais no mundo. Esses dias foram estúpidas com o Carlo – aquele amigo que já não estava mais na mesa, estava atendendo agora – porque ele abriu a porta para uma delas. Nada pode mais! 
- Então você não sabe o que é feminismo? Pode me dizer como é possível opinar sobre esse episódio ou qualquer outro, sobre essa, essas mulheres, ou todas, se você nem sabe o que é? 
Aí o cara parou de rir por completo: 
- Olha não me venha você com essa de dizer que esse tipo de coisa está certa. 
- Estou apenas tendo entender como você constrói suas opiniões. 
- Olha só me diz você uma coisa, porque toda feminista é burra?
- Desculpa, não entendi!
- É ... toda feminista é burra. 
- Confesso que não entendo como chegou a tal conclusão. 
- É .... pelo menos as ativas. 
- Ativas?
- É... as que seguram bandeira, defendem, se definem como tal. 
- Não posso responder, pois as feministas que eu conheço e principalmente as mais engajadas são admiráveis, extremamente inteligentes. 
Ele começou a se perturbar, bebeu num único gole o chopp que restava. 
- Eu não conheço uma inteligente. 
- Posso te citar inúmeras de pessoas comuns as mais conhecidas. Você já leu algo de Simone de Beauvoir? – Mal terminei e me dei conta da besteira que fiz, a coisa ia feder pra valer. 
O cara começou a rir alto, pedia ajuda ao redor com o olhar de bêbado, somente dois ouviam o papo e não faziam menção de se meter. 
- Não me fale em Beauvoir! Não me fale!
- Desculpe, ia lhe sugerir para que entendesse melhor o feminismo e já aproveitar para citar seu nome como filosofa e feminista, afinal, penso ser perigoso opinarmos sobre assuntos dos quais não conhecemos. – nesse momento fui interrompida por ele que começou a falar mais alto. 
- Você sabia que uma mulher é mais fraca e mais frágil que um homem? Sabia que pesquisas mostram que não adianta espernear, as mulheres são mais fracas sim... – Bom dessa vez eu que interrompi: 
- E você sabia que procurar argumentação na genética para justificar injustiças e desigualdades é uma prática super nazista? Parece tanto com arianos comprovando que judeus, mestiços, ciganos eram inferiores e por isso deviam ser dominados. – fui novamente interrompida, só que por um grito e um tapa na mesa: 
- EU NÃO SOU NAZISTA! 
O dono do hostel tão gentil, na verdade já não se apresentava tão, levantou bufando, mas quase tropeçando ainda voltou e gritou comigo: 
- NÃO SOU RACISTA! TENHO AMIGOS NEGROS!
Então saiu...
Eu tomei o resto de meu copo d’água!

domingo, 22 de fevereiro de 2015

Desabafo

Ficam a me perguntar: 
E agora que fará? 
Já mandou currículo? 
Já pediu ajuda?
Tem algum plano traçado? 
Estas precisando de dinheiro? Até quando?
Sabe já o que quer?
Já conseguiu vender? Já comprou? Fez? Fará?
Eu fico a responder: 
Não... também não... então, não sei... pois é... não... 
Entendo a todos. 
Preocupados que são. 
Mas deixe-me não saber de nada. 
Foi tão difícil esvaziar as malas. 
Deixe-me viver o nada. 
Não sei o que quero, desculpa. 
Deixe-me, por um minuto, ser feliz, jogando fora todo esse lixo, que tanto me consumiu. 

quinta-feira, 4 de dezembro de 2014

Extremos....

Existem situações tão extremas que passamos, 
buracos tão profundos que adentramos, 
sujeições tão abusivas que vivenciamos. 
Que ao gritar: NÃO! 
Em alto e bom som, 
pensamos. 
Como pude suportar tanto? 
Mas vem, de repente um pensamento que diz, 
se tu não chegasse a esse extremo, 
viverias sempre sem saber quem és, 
sem saber que já te sujeitavas a tempo. 
A vida é feita de não. 
Só haverá um sim alegre, depois de um não infeliz. 

domingo, 23 de novembro de 2014

despedir-se


É isso que tu queres? 
Então use...
É isso que desejas?
Então vá, abuse...
Não, não haverá palavra de afeto...
Você não valoriza benevolências..
Contente-se...
Não era isso que querias?
Lambuze-se...
Nem uma palavra!
Lembras que não gostas de diálogos...
Agora é teu momento de regojizar-se...
Não terás palavras, não terás lamentos, não terás calento. 
Era isso que querias, não é mesmo?
Despedir-se é também despir-se. 

quarta-feira, 19 de novembro de 2014

Podes me dar migalhas, 
podes roubar meu tempo, 
podes despojar-me de minha juventude, 
pode acabar com minha esperança, 
pode subjugar-me, 
pode escravizar-me, 
pode calar minha boca, 
pode acabar com minha esperança, 
mas jamais terá minha rendição, 
não entrego meu ar, 
vivo nos ideais,
tortura-me, mate-me lentamente, 
meu corpo morrerá, meu ideal é eterno. 
meu ideal não se compra, não se mata, não se destrói, não se controla. 
Essa sede é insaciável.  

domingo, 16 de novembro de 2014

Apaixonados.

Dizem que os apaixonados são cegos. 
MENTIRA! 
Os apaixonados é que sabem enxergar. 
A beleza é sempre vista pelos olhos dos apaixonados. 
Os apaixonados veem sem desqualificar, sem justificar, 
Apaixonados veem melhor, 
Quero olhos eternamente apaixonados.  

domingo, 19 de outubro de 2014

eus teus

Ismael Nery
Há um eu carente...
aquele que deseja o braço, o abraço, 
o aconchego no teu peito, 
assim como teu respeito. 

Há um eu ardente...
aquele que deseja teu corpo, teu cuspe, teu suor, 
teu desejo torpe e sem pudor, 
tua boca, teu beijo, 
tua porra quente,
teu pau inchado e enfiado, 

Há um eu que quer compromisso...
a aliança do amor e da lealdade,
sem leis e nem padres, 
conexos pela vontade. 

domingo, 13 de julho de 2014

JULGAMENTO!

Julguei o vizinho: Olha o que ele fez? 
Julguei a sobrinha: Como age mal? 
Julguei o pai do Joãozinho: Não sabe por limites. 
Julguei o choro da fulaninha: Mas como chora por bobagens? Nem sabe o que é dor de verdade!
Julguei o trabalho do colega: Mas que bela porcaria, podendo fazer algo tão melhor!
Julguei a pergunta do guri: Mas que burrice!
Julguei o comportamento daquela mulher: P....! Sem vergonha!
Julguei o mendigo que pedia esmola: Aposto que é pra beber!
Julguei o assaltante: Lincha! Podia estar trabalhando!
Julguei a falta do outro: Doente de novo? 
Julgo, julguei, julgarei.... mas e agora? 
Estou sentada no tribunal pelo que fiz, pelo que agi, pelo que deseduquei, pelo meu choro, pela porcaria que ofereci, por minha ignorância, pelo meu comportamento, por minha fuga, por minha necessidade, por minha doença... E agora? Não podem me julgar! É injusto!!!!! Entendam o meu lado, por favor?!

segunda-feira, 23 de junho de 2014

incoerências.

De onde vem nossa capacidade de medir o sentimento e dor dos outros?
De onde vem nossa soberba capaz de julgar o comportamento alheio? 
De onde vem nossa incapacidade de sensibilizarmo-nos com as dificuldades do semelhante?
De onde vem essa visão de que o outro é só um outro, que nos é alheio e nada semelhante?
Até cairmos no mesmo abismo, dando de cara com aquilo que ignoramos duramente e que agora não pertence ao outro, ele já nos é, e agora entendemos, não o outro, mas a nós. 

domingo, 22 de junho de 2014

FIM!

Não sofro pelo o que tu fizeste, mas pelo que deixaste de fazer. 
Não pelo que tu disseste, mas pelo que deixaste de dizer.
Não pelo que nós perdemos, mas pelo que deixamos de ganhar. 
Não pelo que nós choramos, mas pelo que deixamos de sorrir. 
Não pelo fim, mas pelo infinito que deixamos de acreditar.